Vasculhei mais a fundo o conteúdo da caixa, algumas coisas eu não conhecia, outras nem me lembrava da existência, mas havia coisas que me partiam o coração apenas de olhar para elas.
Eram coisas bobas que qualquer um julgaria sem valor, mas para mim elas tinham um valor inestimável. Coisas que provavelmente esqueci na minha casa no Brasil – onde Tia Vera morava agora. Minha mãe achou desnecessário vender a casa, então minha tia foi viver lá com meu primo. Ela deve ter visto essas coisas por lá e deve ter imaginado que havíamos esquecido. Tia Vera era preocupada de uma forma que eu gostava, me fazia parecer importante.
Meu coração estava apertado, meu nariz ardia e meus olhos estavam úmidos. Aquilo não estava me fazendo bem. Fechei a tampa da caixa e me afastei dela. Eu precisava falar com alguém. Precisava fazer isso agora.
Voei para cima do telefone e digitei os códigos de área que minha mãe havia anotado com sua caligrafia apressada em um bloquinho de notas branco localizado em cima da mesinha do telefone. Depois de digitar os códigos disquei aquele telefone que já sabia de cor.
Uma voz confortável e sonolenta me atendeu.
“Grazi?” disse emocionada e mordendo o lábio inferior na expectativa. Ela soltou um grito e começou a dizer várias coisas que eu não conseguia traduzir. Comecei a rir.
“Calma, sem gritar tá legal?”
“Você é louca?! Não respondeu nenhum e-mail meu e eu não conseguia seu telefone de jeito nenhum! Pensei que tinha acontecido algo com você ou que você já tivesse se esquecido de nós.”
“Penso em vocês o tempo todo, não se preocupe quanto a isso. Me desculpe por não responder... era doloroso escrever.”
“Também é muito doloroso esperar por notícias suas sabia?!” disse ela em um tom indignado e ao mesmo tempo feliz. Ri um pouco e mordi o lábio novamente.
“Como andam as coisas aí?”
“Uma droga, as férias são chatas, mas o Brasil não é importante. Como andam as coisas por aí?”
Ela não fazia idéia da bobagem que havia acabado de falar.
“Bom, muitas coisas já aconteceram” eu não precisava nem fazer um relato mental dos meus dias em Londres para dizer isso.
“Me conte tudo, absolutamente tudo”
“Se eu te contar tudo provavelmente irei perder meu pescoço com a próxima conta de telefone”
“Tudo bem, conte por e-mail então!”
“Grazi, eu não consigo! Quando abro a página de e-mails, as lembranças das nossas histórias vêm como uma onda na minha cabeça, e eu fico muito, muito mal mesmo”
“Eu imagino... Mas pense só, se você escrever de volta para nós você estará se aproximando das pessoas que estão longe. Igual ao ex-namorado virtual da Marina, a única forma deles se encontrarem era pelo computador. Nós estamos tipo, na mesma situação, mas é lógico que você é mil vezes mais importante do que aquele merdinha virtual. E se coloque no nosso lugar por um instante, aposto que você ficaria aflita”
É, o que ela dizia era de fato verdade, eu me sentiria extremamente aflita.
“Quer saber?” ela voltou a falar após esperar alguma resposta minha “Você se sentirá um lixo quando não responder os e-mails de suas amigas. Quando ignorar as mensagens delas será exatamente isso o que nós vamos pensar: ‘Alice virou uma britânica rabugenta que bebe chá as cinco e usa bottons da Rainha em sua mini-saia xadrez com pregas’, é isso aí.”
“Wow, o que é isso Graziella? Macumba?”
sábado, 25 de dezembro de 2010
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