Duas semanas e meia haviam se passado desde o dia trágico que fora o ano-novo, e desde esse dia não consigo dormir direito. Deito na cama pensando que se tivesse mostrado uma simples mensagem a Carter, a historia de Constance teria tomado um rumo diferente. Penso nisso a noite toda, só caio no sono por exaustão, e ainda sim os sonhos que tenho me atormentam com a imagem daquele dia.
Desde então, nunca mais falei com Carter, apenas o vi no velório de Constance, mas ele parecia não querer falar com ninguém, e não tive coragem alguma de me aproximar dele. Tinha vergonha do meu ato, e preferia que ele ficasse guardado em um local fundo o suficiente de minha memória para que não pudesse alcançá-lo e colocá-lo à tona.
Elle havia ido para casa, e fiquei sabendo através de Margot que sua única intenção em voltar conosco no réveillon era de se encontrar com Burton que a esperava em nosso prédio. Passei a olhá-lo com outros olhos – e Elle também, aquela cara de criança tola mascarava o que ela era de verdade -, e o que sentia por eles era repulsa. Por outro lado, se não fosse por Burton eu teria passado a noite desmaiada no meio da rua. Ele me levou para casa e por isso minha mãe passou a glorificá-lo.
Ela dissera que ele era um rapaz muito educado e de bom coração. Comentários mentais sobre isso foram o que não faltaram para mim, mas não disse nada a ela, não estava com cabeça alguma para entrar em uma briga e dizer tudo do que Burton era capaz. Deixar uma garota perturbada sozinha pelas ruas de Londres em pleno réveillon com toda a certeza não é um ato de alguém com “bom coração”.
Estava sentada na cama e sozinha em casa. Minha mãe estava começando a providenciar algumas coisas para que ela pudesse começar a trabalhar no país, consequentemente ela passava o dia todo fora de casa com meu pai para que ele a auxiliasse.
Eu tinha muito o que fazer: tomar um banho, lavar os cabelos, fazer alguma comida, arrumar meu quarto – isso incluí terminar de tirar minhas coisas das malas – e mais várias outras coisas que nem conseguia mentalizar ainda.
A campainha tocou me pegando de surpresa, e isso me obrigou a levantar da cama e ver quem era. Fui até a porta e a abri antes que a pessoa continuasse a tocar o botão como se sua vida dependesse disso. Abri a porta sem ânimo e paciência de dar minha preciosa atenção a quem quer que fosse.
Olhei para fora e vi de quem se tratava: Carter.
Gelei e fiquei completamente sem reação. Sem que eu o convidasse, ele entrou. Tinha os olhos perdidos e vazios, visivelmente fazia um esforço enorme para esboçar um sorriso.
“Olá” ele disse desanimado.
“Oi” minha voz era quase um sussurro.
O clima estava tenso, ou melhor, ultrapassava isso, chegava a ser sufocante.
“Desculpa vir sem avisar”
“Ah, sem problemas, eu não estava fazendo nada mesmo”
“Posso me sentar?” ele gesticulou para o sofá.
“Fique a vontade”
Nos sentamos e mantemos um silencio amedrontado por um bom tempo.
“Você viu que a neve está começando a cair?”
Eu não havia reparado nisso pois não havia saído de casa.
“Não, eu não tenho saído muito ultimamente”
“Nem eu... Quer dizer, só hoje.” Ele comprimiu os lábios.
Estava visível que ele desabaria a qualquer momento, então comecei a me preparar psicologicamente para isso.
Não demorou muito, e as lágrimas fluíram e minha breve preparação psicológica de nada havia adiantado.
“Eu vim aqui” ele respirou fundo enquanto limpava seu rosto “para pedir a sua ajuda.”
Congelei diante de seu pedido inusitado e comecei a ponderar a idéia. Não parecia ser exatamente o certo a ser feito.
“É insuportável respirar dentro daquela casa, não me sinto bem lá. Me sinto incompleto, me sinto sozinho e o silêncio me assusta” ele fez uma pausa “Não quero que segure minha mão, não quero seu ombro para chorar, quero apenas que você me faça esquecer o que eu prefiro não lembrar.”
Isso soava como uma substituição de emergência e me parecia ser impossível.
“Carter, eu não sei...” não parecia estar ao meu alcance, na verdade eu não tinha a menor idéia de como fazer isso, mas eu deveria fazer, pois depois do meu erro, ajudar era o mínimo a ser feito. E além disso, Carter não me crucificou depois do meu ato – talvez pois a forma como eu me crucificava já era suficiente.
“Por favor” ele segurou minha mão com seus dedos ressecados e gelados, estremeci. Seus olhos imploravam por ajuda, e negá-la era praticamente impossível.
“Tudo bem” falei por compaixão, mas não por uma vontade verdadeira de agir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário