Seus olhos pareciam mais aliviados e acomodados e eu estava preocupada. Como eu poderia ajudar Carter? Balancei a cabeça quase imperceptivelmente; estava metida em um problema.
“Você quer um chá?” ofereci, assim teria tempo de organizar meus pensamentos.
“Sim, por favor.”
Torci para que houvesse um sachê de chá na cozinha. Me levantei e fui procurar, sem muita demora achei um, então coloquei a água para ferver.
Fui para o balcão da cozinha e de lá fiquei observando Carter. Ele olhava para o chão e estava imóvel, já tinha parado de chorar. Eu precisava puxar algum assunto com ele, mas o que? Nada me vinha à mente, tudo parecia inapropriado demais, e qualquer passo em falso poderia desencadear uma situação terrível, algo que eu provavelmente não estaria preparada para enfrentar. Escolhi um assunto aleatório, e decidi que falaria sobre o tempo. Não parecia perigoso.
“Você gosta da neve?”
Parece que o peguei de surpresa.
“Bom, sempre convivi com ela, então... acredito que sim” Ele puxou seus lábios no que parecia ser um meio sorriso forçado.
“Eu vi a neve uma vez na vida, quando viajei para os Estados Unidos.” Sorri com a lembrança “Eu era bem pequena, ficava imaginando que toda a neve era sorvete” dei risada baixa “dizia para as outras crianças que meu pai havia me dado sorvete suficiente para durar a vida toda. Dizia isso em português é claro, ninguém entendia, apenas voltavam a jogar bolas de neve uns nos outros.”
“A imaginação infantil é realmente incrível”
Estava aí um assunto melhor do que o clima da cidade, aproveitei a deixa.
“Me diga, o que já imaginou quando era criança?”
Entrelacei os dedos e apoiei a cabeça sobre eles olhando curiosa e entretida para Carter.
“Palitos de pirulitos sempre viravam cigarros” ele riu. Não era uma gargalhada solta, mas também não era um riso muito reprimido.
Carter estava menos fechado, e isso era muito bom. De repente estava confiante, eu poderia sim ajudá-lo, era apenas uma questão de aproveitar as oportunidades. E não era necessário fazer muito, apenas um assunto bobo podia fazê-lo se sentir melhor.
“Acho que todas as crianças já fizeram isso alguma vez na vida” disse começando a brincar com a colher de açúcar dentro do açucareiro que estava na bancada.
O barulho da água borbulhando no fogão chamou minha atenção. Desliguei o fogo, peguei duas xícaras e cuidadosamente fui colocando a água dentro delas.
Olhei para os sachês e na embalagem vinha a palavra “Chamomile”
“Espero que goste de chá de camomila”
“É o meu favorito” respondeu Carter. “Gosto com leite, por favor”
Leite?
Olhei para ele através do balcão com uma cara de “essa-combinação-não-é-meio-estranha?”
“O que foi?” ele me retribuiu o olhar.
“Chá com leite?”
“Sim, qual é o problema?” ele arqueou uma das sobrancelhas.
“Bom, é uma combinação meio estranha.”
“Não é não, é muito bom”
“Tudo bem” não discutiria com ele, afinal gostos não se discutem.
Abri a geladeira e fiquei surpresa por achar uma caixa de leite lá dentro. Minha mãe não bebia leite, eu nunca a vi bebendo, ela dizia que lhe dava dores de cabeça; ou eram de barriga? Enfim, isso não importa. Quando ainda estava no Brasil meu pai não era um grande fã de leite, mas seus gostos devem ter mudado de um continente para o outro.
Peguei o leite, a xícara e o pires com a colher de Carter e levei para a mesinha de centro da sala que ficava em frente ao sofá onde ele estava, e então peguei minha xícara e sentei no sofá menor ao lado do de Carter.
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