Ele colocou o leite no chá, misturou e então bebeu.
“Está aceitável?” perguntei.
“Muito bom, na verdade.”
“Nunca fiz chá antes”
“Bem-vinda à Inglaterra”
Tomei um gole do chá que desceu queimando pela minha garganta, podia senti-lo chegando ao meu estômago. Não gostava muito dessas coisas quentes demais, não conseguia sentir o gosto direito da bebida, só ela fazendo o caminho do meu sistema digestório, e como se não bastasse eu sempre queimava minha língua ou o céu da boca.
Fiz uma careta para o chá e puxei as mangas da minha blusa para que cobrissem a palma da minha mão e eu não me queimasse.
“Não está acostumada com o chá, não é mesmo?”
“Não” disse envergonhada “eu bebia isso no Brasil, mas era uma versão gelada”
Lembrei-me dos almoços na casa de minha tia tomando um Nestea sabor pêssego extremamente gelado enquanto comia um de seus pratos mirabolantes.
“Ahm, prefiro o bom e velho chá tradicional” disse ele tomando um gole.
Coloquei a xícara na mesinha e meus pés em cima do sofá abraçando meus joelhos.
“Então, o que mais você fazia na infância?”
Espremeria aquele assunto até não poder mais aproveitar o suco dele.
“Brincava de carrinho”
O clássico. Ele se surpreenderia se dissesse que também fazia isso?
“Eu também” sorri “Não venha me dizer que meninas devem brincar com bonecas. Eu adorava minhas bonecas, claro, mas às vezes dava um descanso a boa e velha Srta. Barbie e ia me esbaldar nos carrinhos de coleção do meu pai. Eu tinha até um postinho de gasolina!”
“Por essa eu não esperava!” ele disse levemente surpreso.
“É verdade, e nem meu pai nem minha mãe faziam objeção a isso.” Disse animada com o assunto “Como se não bastasse, eu tinha ciúmes dos carrinhos. Meus primos me visitavam com a única intenção de brincar com os meus brinquedos, e eu ficava sempre P. da vida por vê-los brincarem com tamanha brutalidade. Um carrinho sempre saía lesionado e isso me deixava magoada. Minha mãe tentava reparar os danos com uma super-cola, mas mesmo com todo o carinho do mundo a colagem sempre ficava meio torta. Eu não reclamava, apenas cuidava do ‘carrinho machucado’ com uma atenção especial”
Carter riu. Essa risada havia sido ainda mais solta do que a que ele dera antes.
“Eu vivia quebrando meus brinquedos” começou ele “Não pedia para minha mãe colar, eu simplesmente inventava algo mais interessante para fazer com ele. Certa vez meu pai encheu uma sacola só com peças de brinquedo para jogar fora, quem disse que eu deixei? Quando vi ele saindo de casa com aquela sacola enorme fiz uma pirraça memorável, ele tentou argumentar, mas meus gritos o venceram.” Ele balançou a cabeça rindo “Sempre conseguia o que queria”
Aquela frase levou minha mente até Burton, e me censurei por pensar naquele bastardo agora. Provavelmente ele tinha o que queria sem a necessidade de pirraçar, mas comigo não seria dessa forma. Margot estava certa, eu realmente estava me iludindo.
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