terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Secret Garden | Página 35 | Capítulo 7

Balancei a cabeça para afastá-lo de minha mente, e disse qualquer coisa para prosseguir o assunto com Carter.
“Eu adorava colorir. Sempre desenhava casinhas com garotinhas do lado de fora para que pudesse colorir.”
“Ah, o meu papel era a parede branca do meu quarto. Estava completamente desenhada com giz de cera até meu pai pintar tudo novamente. Ele me fez prometer que não usaria mais a parede como papel.”
“Aposto que não cumpriu a promessa”
“Se fosse uma aposta de verdade você teria ganhado. Quando minha mãe me viu colorindo tudo novamente, ela riu, balançou a cabeça e disse: ‘Você está encrencado Cartie’ então veio até mim, pegou um giz de cera e me ajudou a colorir.”
“Há, parceiros de crime!” disse apontando para ele e rindo.
Carter também caiu na gargalhada.
Eu estava conseguindo. Meu estômago se revirou de emoção por saber que eu era capaz de ajudar Carter. Os risos se silenciaram e Cart ficou sério novamente, quase como a forma em que chegou aqui.
“É melhor eu ir” Carter disse olhando para o chão. Isso não era um bom sinal.
Senti todo o meu esforço indo por água abaixo.
“Mas já? Você nem terminou seu chá” apontei para a xícara em sua mão.
“Eu estou satisfeito, obrigado” ele se levantou pegando o casaco que havia deixado no encosto do sofá. Dirigiu-se à porta e eu fui atrás dele. Deveria dizer algo de uma vez por todas, contar que talvez não desse conta de fazer o que ele havia proposto para mim antes que ele mesmo pudesse perceber isto.
“Cartie” comecei a falar cautelosamente “Olha, eu não sei como te ajudar. Não sei por onde começar e minha primeira tentativa acabou de falhar. Não sei porque me escolheu para te ajudar, tem tanta gente melhor do que eu para fazer isso”
“Eu te escolhi porque eu sei que você é capaz, e... Você começou bem Alice, muito bem. Faz tempo que eu não rio de uma forma verdadeira.”
Isso havia me aliviado um pouco, mas sentia que ele dissera apenas por dizer, dissera por perceber o quanto estou me sentindo impotente no momento. Não sabia o que dizer, então simplesmente o abracei forte, ele praticamente desabou em mim. Senti seus ombros balançando por conta do choro, apertei mais ainda meu abraço e sussurrei em sua orelha:
“Talvez você precise sim de um ombro para chorar.”

Respirei fundo levemente irritada. Durante o dia a única coisa em que consegui pensar foi sobre a proposta de Carter, e se antes sentia decepção, agora sentia raiva de mim mesma por ser tão egoísta e idiota, e isso me lembrava a forma como havia dito mentalmente que Constance era a egoísta enquanto ela provavelmente estava pronta para acabar com a sua vida, e inconscientemente com a de outra pessoa. E o que não conseguia entender era por que ela havia feito isso, jogado sua vida fora - quase de uma forma literal - por tão pouco.

conseguia entender era por que ela havia feito isso, jogado sua vida fora - quase de uma forma literal - por tão pouco.
“Se precisar de ajuda com a... ‘ajuda’, sabe onde me encontrar” ela piscou. Poderia soar de maneira cômica se não estivesse tão irritada e se não fosse tão trágico.
“Por que Margot? Ela era tão nova... Tinha tanto o que viver ainda...”
“Drogas. Não que a quantidade tenha feito isso, apenas a qualidade. Ela deve ter usado algo que a fez acreditar que poderia voar, por exemplo.”
Margot ainda não tinha conhecimento da mensagem que Constance havia deixado a Carter, mas mesmo assim essa hipótese tinha algum fundamento. Ela provavelmente imaginou que apenas se machucaria o suficiente para chocar Carter por ter desobedecido à sua ordem. Ou imaginou que se morresse, voltaria depois para dizer: ‘Brincadeirinha!’ me arrepiei imaginando a cena.
Balancei a cabeça para me livrar desse pensamento, ele soava terrível demais.
 “Bem no réveillon... Ainda não digeri a informação direito, sabe. Parece que não aconteceu”
“Constance vivia no Café, então eu estou começando a sentir falta dela, e também de Carter. A ficha está começando a cair para mim”
 E parecia que para mim nunca cairia, estava tudo tão estranho, tão fora do lugar. Logo me encontrei notando que me sentia assim desde o primeiro dia em que pisei nessa cidade. Desde aquele dia me sinto deslocada, perdida, errada. Eu queria minha vida de volta, queria isso mais do que tudo.

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