Eu não estava muito feliz com a presença dela ali, pois ainda me recordava de suas verdadeiras intenções com Burton durante a noite de réveillon. Mas agora, veja que engraçado: os dois realmente se mereciam.
“Valeu.” Ela disse casualmente enquanto passava a mão nos cabelos. “Mas então… Raiva de quem gastou dinheiro comprando isso para você, ou você está descartando porque elas estão morrendo?”
Fingi uma feição de incompreensão. Ela podia ser mais nova, mas era perceptiva.
“Aposto as minhas fichas na primeira opção. Sabe por quê?” Ela deu um sorrisinho irritante. “Porque se seus sentimentos com essa pessoa ainda fossem positivos, você manteria as flores por perto até que elas apodrecessem e começassem a feder.” Ela deu de ombros “Atitudes automáticas e incompreensíveis de idiotas apaixonados.” Com o indicador, ela deu duas batidinhas no cigarro, fazendo as cinzas serem carregadas pelo vento frio.
Eu estava um pouco assustada. Mesmo sem querer admitir, eu sabia que ela tinha toda a razão. Mas, como? Ela não conhecia absolutamente nada da minha história ou dos meus sentimentos, como ela poderia deduzir tanto a partir de uma atitude que parecia ser tão pequena?
“Tenho certeza de que a sua avó não vai ficar feliz caso ela te veja fumando.” Desviei completamente o rumo da conversa.
“Ela faz o mesmo.” Elle disse e apagou o toco do cigarro no chão.
“A diferença é que ela pode fazer o mesmo.”
“Porque ela tem setenta anos e eu tenho quinze?” ela arqueou uma sobrancelha desafiadora “Te garanto que o meu pulmão está em melhor estado do que o dela.”
“Não se você continuar fumando desse jeito.” Rebati.
“Eu me resolvo com isso no meu leito de morte. E, aliás, todo mundo morre um dia. Prefiro morrer tendo aproveitado tudo o que eu gosto do que morrer sofrendo para controlar meus vícios.”
Meu Deus. Resolver um cubo mágico parecia trivial quando comparado a tentar entender a cabeça dessa menina.
Uma chuva forte nos pegou de surpresa, então fomos obrigadas a correr para dentro do prédio. Elle subiu as escadas e eu me dirigi para o meu apartamento, ambas em silêncio. Quando eu estava prestes a fechar a porta, Elle chamou:
“Ei, Alice” me alonguei para vê-la no topo da escada “Foi mal se eu disse alguma coisa que não deveria. É só que eu estou puta com algumas coisas, e acabo descontando em tudo. Enfim , qualquer dia aparece aqui em casa.”
Comprimi os lábios, em seguida sorri em afirmação, mesmo sabendo que provavelmente eu nunca iria visitá-la. Esse nosso segundo encontro havia sido estranho demais – e um pouco assustador, eu diria – para permitir algo assim. Sendo sincera, eu poderia dizer que essa na verdade havia sido a primeira vez que eu a vira, pois a Elle que eu conheci no final de Dezembro, definitivamente não existia mais.
Elle sumiu do meu campo de visão, então finalmente fui para o meu apartamento. Sentei-me no sofá e comecei a digerir esse momento pelo qual eu havia passado. Definitivamente, essa era a forma mais estranha, inconveniente, e não amistosa de se reencontrar alguém. Primeiro porque não começamos por um abraço ou aperto de mãos, mas sim por um tropeção. E então trocamos intromissões nas vidas uma da outra. E por fim, nos despedimos com um sorriso educado.
Por mais estranho que tudo isso soasse, eu teria que me acostumar, pois de agora em diante seriamos obrigadas a viver em um mesmo local. Tudo o que eu desejava era que isso gerasse ramos bons, pois ter que me livrar das flores secas já estava me cansando.
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