domingo, 8 de janeiro de 2012

Secret Garden | Página 104 | Capítulo 23

“Nem eu.” Clara complementou.
Esfreguei os olhos e passei a mão pelos cabelos enquanto pensava sobre isso. Ela havia chegado a um ponto crucial. Foi ali que eu percebi o motivo de tê-las chamado para ter essa conversa. Era muito mais do que uma necessidade de desabafo e de colocar o assunto em dia, era um pedido de ajuda.
“Eu sinceramente não sei o que fazer.” Olhei para os lados evitando ver os rostos delas me encarando, eu sentia uma ardência em meu nariz e os meus olhos se enchendo, mas não me permiti chorar.
“Você ainda gosta dele, não é mesmo?” concluiu Grazi. Fiz que sim com a cabeça, dando fim a uma batalha inicial. Não havia sido fácil, mas eu sabia que não seria a mais difícil. Os soluços começaram.
“Você pretende voltar para ele?” Marina perguntou. Olhei para ela, e obviamente ela estava falando sério.
“Não! De jeito nenhum!”
“Então a solução é uma só, minha querida:” ela fez uma pausa dramática, piscou demoradamente e continuou:
“Operação Borracha”
“Ah, essa é eficaz.” Comentou Grazi com um meio sorriso.
“Do que você está falando? O que é isso?” franzi as sobrancelhas sem compreender nada. Os soluços se cessaram.
“Lembra quando eu era perdidamente apaixonada pelo Fernando?” Marina perguntou.
“Argh, sim.”
Fernando era um garoto que entrou na nossa turma no sétimo ano. Na perspectiva de Marina, ele era um príncipe encantado, mas na verdade ele era um idiota. Ela ficou durante dois anos e meio atrelada a uma esperança de reconhecimento, seriedade e então um relacionamento. Mas isso nunca aconteceu. O que pude entender pela sua mudança depois de um tempo, foi que ela conseguiu se livrar disso por ter finalmente enxergado que ele não queria nada além de diversão.
“Então, foi isso que eu fiz para desencanar: Operação Borracha. Me livrei de tudo o que me fizesse lembrar dele, até que eu conseguisse seguir com o meu dia-a-dia sem ficar me remoendo com coisas do passado. Eu transformei e sumi com muita coisa.”
“Ah, foi por isso que você quis me dar o seu hamster, Marina?” Clara perguntou.
“É.” Ela respondeu e comprimiu os lábios.
“Nossa! E eu te perguntei o motivo de você querer doá-lo!”
“Enfim, gente!” Falou Grazi em um tom mais alto para finalizar a discussão que iria começar “Depois vocês discutem isso.”
Elas se calaram.
Enquanto elas começavam a discutir por causa do hamster, ponderei a idéia de Marina. Soava razoável, considerando que era ela quem havia sugerido.
“Mas, você não pensava no motivo de tais transformações quando as via? Porque, se sim, o efeito acaba sendo contrário.”
“Eu ficava bastante maravilhada com algumas mudanças, então acabava nem me importando com o motivo. Mas eu tenho que admitir que, no início, eu sentia isso com algumas coisas sim... Mas depois fui me acostumando e não me importando, ou esquecendo.”
Isso fez o receio diante dessa idéia crescer.
“Bom, eu não sei...” disse balançando a cabeça.
“Olha Alice, eu sei que você está com medo de que não dê certo, e acabar com muitas coisas diferentes de como eram em vão. Mas pense, comigo deu certo. Você não acha que vale a pena ao menos tentar? Você não tem nada a perder.”
Ela tinha razão. Eu já não possuía mais nada para perder.

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