“Alice, tem certeza disso?” minha mãe perguntou pela quarta vez. Ela estava com mais medo do resultado do que eu.
“Absoluta.” Ela franziu as sobrancelhas e me analisou.
“Mas ele é tão bonito, filha...”
“Mãe, eu já fiz a minha decisão.” Respirei fundo e entreguei a tesoura que ela havia largado despistadamente sobre a pia do banheiro. “Você já me fez desistir de pintá-lo, mas eu não vou deixar de cortar. Esse cabelo vai mudar de alguma forma.”
Ela suspirou e posicionou a tesoura.
“Eu sou sua mãe, não deveria concordar com isso…”
“Mãe, se você não aceitasse, eu iria procurar um cabeleireiro. Não tem como fugir, dona Ana Márcia.”
“Eu te proibiria de cortar o cabelo, em qualquer circunstância.”
“Eu sou quase maior de idade, isso seria ridículo.”
“Quase maior de idade uma ova! Você mal fez dezessete anos…”
“Então… Esse ano eu faço dezoito.”
“Em dezembro, mocinha. Ainda estamos em março.” Ela olhou para mim através do espelho com uma expressão severa. “Eu pensei que você tivesse deixado de lado essa idéia de achar que com dezoito anos você será a rainha do mundo.”
“Eu não deixei, mãe. Eu apenas fiquei silenciosa a respeito disso.”
Ela suspirou novamente e colocou a tesoura em uma região um pouco abaixo dos meus ombros.
“Aqui? Você tem certeza?” ela me lançou um olhar persuasivo.
“Sim, mãe.”
Lentamente, ela foi aproximando as alças da tesoura, mas quando a lâmina estava prestes a cortar os meus fios, ela diminuiu o comprimento da parte cortada. Uma mecha úmida caiu no chão.
“Mãe!” protestei encarando-a incrédula.
“Desculpa, Alice!” ela fingiu. “Foi um reflexo meu... Não foi a intenção.”
“Com certeza, mãe.” Irritada, me endireitei na cadeira.
“Agora eu vou ter que cortar nesse comprimento… Que pena…”
Mentalmente, eu me perguntava como ela conseguia ser tão cínica. Olhei para a parte que ela havia cortado “acidentalmente”, e me dei conta de que a tentativa dela não havia sido tão bem sucedida assim… Deveria haver apenas um dedo e meio de diferença do comprimento que eu havia planejado.
Ela continuou cortando os fios restantes, repicando e fazendo o que restava das minhas mechas californianas irem embora. Agora eu seria completamente morena novamente. Eu confiava em minha mãe para cortar o cabelo, – bem, até alguns minutos atrás, pelo menos – pois durante toda a minha vida, ela fez isso por mim.
Esse era o meu primeiro passo da missão que Marina havia proposto: livrar-me do cabelo que B. dizia gostar. Eu pensei que essa seria a fase mais difícil da minha missão de desapego, então decidi fazê-la primeiro, pois assim as outras partes pareceriam mais suaves.
“Pronto.” Ela disse posicionando as mãos sobre os meus ombros. “Agora só falta secar.”
Fiquei analisando enquanto ela pegava o secador. Estava diferente do que eu era acostumada, mas eu sabia que essa diferença só se realçaria por completo quando os fios estivessem secos.

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