segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Secret Garden | Página 107 | Capítulo 24

 Era segunda-feira, meu segundo dia com os cabelos cortados. Pablo saiu pela porta carregando sua maleta abarrotada de folhas e livros - inclusive, três dessas folhas eram um “teste” que ele havia me passado. Achei isso um tanto engraçado... Ele poderia me reprovar no final do ano? Se pudesse, esse não seria o meu primeiro ano de estudos desperdiçado.
Eu fui reprovada na sexta série, e recebi essa notícia sem um pingo de tristeza no coração. Levando em conta todo o meu desleixo com os livros e com a escola naquele ano, eu mais do que mereci. Isso aconteceu não por causa de uma incapacidade intelectual minha (até porque, após aquele ano, nunca mais fui chamada para as recuperações finais), mas porque não cumpri o único dever que possuía naquela época: estudar.
Suspirei com a lembrança e fui para a cozinha atrás de comida. Antes de abrir a geladeira, algo em cima do balcão me chamou a atenção. Era o buquê que Burton havia me enviado na tarde daquele dia.
“Caramba, Alice! Você jogou o seu cabelo fora e deixou isso aqui?” me reprimi.
Realmente não sabia como eu não havia notado a presença marcante daquelas flores, e, consequentemente, como elas ainda estavam ali. A maioria delas estavam murchas ou mortas. Desisti de comer, pois eu não teria paz enquanto aquilo não saísse da minha casa.
Peguei todas as flores de uma vez só e deixei uma trilha de água no caminho até a porta. Eu teria de colocar aquilo em uma lixeira externa, pois era grande demais para qualquer lixeira dentro do meu apartamento. Destranquei a porta com certa dificuldade, já que as minhas duas mãos estavam ocupadas. A porta de entrada do prédio foi menos complicada de ser aberta, já que havia um botão para destrancá-la.
Antes de descer as escadas, quase tropecei em uma garota que estava sentada no degrau superior fumando.
“Me desculpe” murmurei e desci as escadas em direção a lata de lixo mais próxima. Quando estava prestes a jogar as flores lá dentro, uma voz feminina disse:
“Jogando flores no lixo?”
Procurei com o olhar a intrometida, e vi que era a garota que eu quase havia atropelado.
“Não é muito educado dizer…” fiz uma pausa. Comprimi os meus olhos para tentar enxergar melhor o rosto dela. Eu a conhecia, mas não conseguia me lembrar de onde. “Me desculpe, mas nós nos conhecemos?” perguntei.
“Meu nome é Elle.” Ela disse lambendo o lábio inferior, em seguida levou o cigarro novamente a boca.
O nome veio como um tiro em minha mente. Elle. A garota do réveillon, neta da senhora simpática do segundo andar. Eu nunca conseguiria reconhecê-la, pois a única coisa em seu físico que não havia sido alterada era a sua estrutura.
O cabelo estava longo, mas agora era vermelho como sangue diluído, e a lateral direita estava raspada, porém o local onde ainda havia cabelo estava mais volumoso do que eu conseguia me recordar. Ela tinha um piercing preto no septo, e grandes alargadores brancos em ambas as orelhas. Usava um short jeans rasgado com uma meia calça preta por baixo, uma blusa com monstros desenhados, e um chapéu marrom desleixadamente equilibrado em seus cabelos. Um forte traço de delineador preto desenhava suas pálpebras superiores, um batom vinho pintava sua boca, e era visível para uma garota inserida no mundo das maquiagens que ela usava cílios postiços. Agora que eu sabia quem ela era, o fato de haver um cigarro em seus lábios me deixou um pouco chocada, afinal, não foi ela quem se sentiu mal por sair com os amigos e deixar a avó sozinha no réveillon? Ao que parece, fumar com quinze anos de idade não era nada comparado a isso. Mas agora, com toda essa maquiagem e atitude de garota matura, eu daria a ela um mínimo de dezessete anos, porém, eu sabia que ela tinha menos. Ual, o que três meses podiam fazer com uma pessoa.
“Elle?” não consegui evitar o tom de choque.
“Alice. Não é?”
“Sim… Ahm” limpei a garganta “Eu pensei que você só viesse para Londres durante o Ano Novo…”
“Não, eu me mudei pra cá na semana passada.” Ela disse, em seguida soltou a fumaça pelos lábios. O motivo dessa mudança me deixou curiosa, mas preferi não perguntar.
“Ah, sim... Bem vinda” disse sem a verdadeira intenção.

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