Pablo falava algo sobre biologia, mas eu não assimilava nada. Eu não havia conseguido dormir direito na noite passada, e agora o sono me cobrava a dívida. O professor olhou rapidamente o relógio e começou a se despedir. Mentalmente, eu agradecia aos ponteiros por finalmente terem resolvido andar.
Abri a porta para Pablo e me despedi, em seguida arrastei-me até a cama que estava estrategicamente desarrumada. Fechei os olhos, e imediatamente o sono começou a me embalar. A sensação de que o cansaço me apagaria em poucos minutos era muito boa, pois isso me dava a certeza de que os meus pensamentos não me perturbariam por muito tempo. Eu só precisava de algumas horas e então poderia... A campainha tocou e quase caí da cama com o susto que levei. Respirei fundo e virei-me para a parede. Deveria ser a Elle, e eu não iria atender.
Poderia ser apenas uma interpretação errada da minha parte, mas a sensação que eu tive durante essa semana foi de que Elle estava tentando se aproximar de mim. Na terça ela veio até o meu apartamento com um saco de pipocas e um DVD do filme Scott Pilgrim Contra o Mundo em mãos. Ela agia como se nos conhecêssemos há tempos, mas na verdade, eu não seria capaz de preencher uma folha de papel por completo com todas as palavras que havíamos trocado antes disso.
A campainha soou novamente e eu fui obrigada a atender. Elle não me deixaria em paz até que eu fosse ver o que ela queria. Esfreguei os olhos, passei rapidamente os dedos pelos cabelos e fui até a porta. A abri lentamente enquanto suspirava e olhava para o chão.
“Oi.” Cumprimentei sem ânimo e ergui o meu olhar.
Aquela pessoa não era a Elle. E perceber isso me fez entrar em estado de choque. Merda, merda, merda.
“Hm... Oi.” Ele disse, parecendo levemente assustado. Notei que seus olhos estavam um pouco arregalados, e então percebi que os meus também estavam. Meu coração estava palpitando tanto que me dava enjôo.
Fechei a porta e corri para debaixo da cama. Pronto, eu ficaria ali pelo resto do século, pois com certeza ele iria embora depois de tanto tempo.
Como seria bom se alguns desejos momentâneos se concretizassem. Mas, pensando bem, no momento seria melhor ainda se eu conseguisse falar alguma coisa ou simplesmente deixar o meu choque menos explicito.
Cruzei os braços, arqueei uma sobrancelha e tentei fazer a minha melhor expressão de indiferença.
“O-o que você está fazendo aqui?” teria sido bem melhor se eu não tivesse gaguejado.
“Eu espero não estar te atrapalhando, mas, preciso conversar com você.”
Forcei uma risada indignada.
“Eu sinceramente acho que não há nada a ser discutido.” Engoli a seco. “Boa tarde, Burton.”
Eu estava fechando a porta, quando a mão dele me interrompeu. Rolei os olhos.
“Eu disse que preciso conversar, e vou fazer isso agora.” Ele estava completamente sério. Impunha não só com palavras, mas com o olhar também. “Aconselho você a me escutar.”
“Certo.” Disse rudemente e com relutância.
“Eu deveria ter te impedido de ir embora naquele dia, e deveria ter feito o que estou fazendo agora.” Ele me olhava diretamente nos olhos. Era doloroso. “Mas seria ineficaz, pois você não me escutaria, e pensaria que aquilo eram apenas palavras vazias para explicar um ato que já diz muito por si só.”

OMG.
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