Eu não era de ficar me gabando, mas aquele vestido havia me deixado deslumbrante. Eu me achava bonita na medida certa, – apenas o suficiente para dizer: se não me acho bonita, quem é que vai achar?- mas agora, na frente do espelho, completamente produzida me dava conta de que podia ficar mais ainda.
Ontem havia saído com minha mãe para comprar roupas para a festa de hoje, e os vestidos que havíamos escolhido eram um tanto... Caros. Mas era como eu e minha mãe costumávamos dizer: valiam o preço que custavam.
Nunca me aventurara com um vestido longo, mas dessa vez eu tive coragem e escolhi um nesse estilo. Essa cidade estava me deixando corajosa, mas isso não é algo ruim, pelo contrário, o vestido longo ficou bem melhor em mim do que os meus curtos/curtíssimos ficavam. Talvez quando eu colocasse o sobretudo o visual se estragaria, mas provavelmente o local da festa seria quente o suficiente para não precisar usá-lo.
O vestido tinha o tom creme, e a cor do sapato que comprara se aproximava disso. Eles ficavam deslumbrantes juntos. Prendi meu cabelo em um meio rabo alto deixando um volume no topo, na minha opinião isso dava um ar elegante. Minha mãe duvidou um pouco, mas depois viu que eu tinha razão.
Passei uma maquiagem leve, mas que não ficou tão leve com um batom vermelho. A mistura da maquiagem com o vestido e os acessórios (pulseiras e brincos) me fez envelhecer alguns anos. Se eu tivesse a idade de minha mãe provavelmente acharia isso ruim, mas como não tinha estava achando um máximo.
Me analisei mais um pouco no espelho dando uma virada sutil para o lado. Eu estava completamente o oposto do que era no Brasil. Eu nunca usaria um vestido longo, nunca usaria tons claros, nunca usaria uma maquiagem apagada – podia ser apagada, mas era incrível, fazia minha pele parecer ser de porcelana – e as diferenças não acabavam no meu visual; eu nunca iria para uma festa de alta sociedade dos meus pais. Meu deus, eu estava mudando, e, gostando ou não, eu deveria admitir para mim mesma que essas mudanças estavam sendo muito boas até agora.
“Alice, você está linda” disse minha mãe escorada na porta do banheiro me olhando através do espelho.
“Obrigada, mãe” me virei para ela “você também está”
Ela me deu um sorriso bobo em resposta.
O vestido dela era preto com detalhes prateados, também era longo, mas o dela tinha mangas, no meu as mangas iam apenas até os cotovelos.
“As princesas estão prontas?” meu pai disse aparecendo na porta do banheiro. Não pude evitar rir com sua expressão exagerada e antiquada “Não se esqueçam que temos que chegar na hora, aqui não é como no Brasil”
“Eu estou pronta” disse já me defendendo.
“Eu também” falou minha mãe enquanto saia do banheiro, fui atrás dela.
No meu quarto, peguei uma bolsa estilo carteira - essa pude aproveitar das minhas coisas do Brasil – e meu sobretudo. Ele não tinha nada de mais, era apenas preto e sem graça e isso me fazia ansiar por outro mais alegre e colorido.
O vesti e saí de casa. Tive que levantar o vestido para que ele não se arrastasse na neve lamacenta que estava começando a derreter. A neve havia parado de cair no meio da semana, o que foi um alivio para Margot, pois ela estava ansiosa para o início da ‘nova era’ do Secret Garden.
Minha mãe já estava no carro esperando por mim e por meu pai que estava trancando a casa, mas sem demora chegou até nós. Ele estava bastante elegante com um terno.
Andamos pelas ruas e demoramos um pouco para chegar ao nosso destino. O prédio do local da festa era um hotel, e bem moderno o que me surpreendeu. Geralmente as coisas aqui são clássicas e velhas, mas devo admitir que é bonito. Na porta carros faziam uma pequena fileira e pessoas ricas saiam deles entregando as chaves para os manobristas. Não demorou muito para que nossa vez chegasse, meu pai entregou a chave do carro e entramos no prédio.
Meu deus, não sabia qual era mais belo, o interior ou o exterior daquele lugar. Era tudo grande, moderno e – óbvio – de aparência cara. Seguimos um caminho que finalizava em um salão de festa também grande e bonito. Mesas redondas e com enfeites delicados se espalhavam pelo local, eu observava tudo meio boquiaberta.
Deveria ser errado eu estar em um lugar como esse, eu não pertencia a essa sociedade, meu pai deve ter cometido algum engano. Olhei para ele enquanto ele cumprimentava um homem gordo e rosado que passava por nós. Não, ele não estava enganado. Caramba, desde quando meu pai se mistura com essa gente? Meu deus.
Não éramos pobres, mas também não éramos ricos. Tudo bem, a festa era da empresa do meu pai, mas as festas dessa mesma empresa no Brasil eram bem diferentes. Os trajes não eram de gala, era apenas uma camiseta que cada funcionário comprava por 20 reais, meu pai veio para cá porque fora promovido, mas não imaginava que a promoção era tão grande assim. Uou, que contraste. Eu deveria ser rica e nem sabia.
domingo, 16 de janeiro de 2011
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