“Viu alguma coisa que não gostou aí no chão?” Carter interrompeu meus pensamentos enquanto conferia o chão. Eu deveria estar com uma feição horrível “Faz algum tempo que eu não varro, admito, mas cá entre nós, nem tá tão ruim assim...”
Desfiz minha careta.
“Não, não é isso. Seu chão está impecável, não se preocupe”
Ele me olhou, e seus olhos pareciam esperar por algo.
“O que é então?”
“É que...” cocei a cabeça sutilmente, e então olhei para um relógio na escrivaninha, quando vi as horas, não pude evitar dizer em voz alta:
“Caramba, eu estou muito fudida!” tapei a boca com as mãos e mordi a língua. Se controle Alice, se controle.
Carter estava confuso, e ainda esperava por algo, mas agora estava mais ansioso. Me toquei de que havia gritado em português, o que me deixou mais aliviada. Eu costumava dizer muitos palavrões quando estava entre amigas, mas não queria que Carter pensasse que eu era uma boca suja – apesar dele (e de todo mundo aqui) repetir a palavra ‘Fuck’ a cada cinco segundos.
“Me desculpa Carter, mas tenho que ir” fui dizendo enquanto pegava meu casaco, meu cachecol e minhas luvas apressadamente “Meus pais devem estar chegando em casa e eu não avisei que vinha pra cá. Eles estão acostumados com minha saída para o Secret Garden, mas, você sabe, o café é literalmente do lado da minha casa” ainda era estranho usar o termo ‘minha casa’ aqui “e eles podem muito bem conferir se estou lá ou não, pra ser mais exata, quando eles chegam de carro eles conseguem ver praticamente todo o café pela janela, então eles conferem antes mesmo de chegar em casa, e quando eles chegarem e eu não estiver lá, vai ser um grande problema.”
Ele deu uma risada curta, se levantou e abriu a porta para mim.
“Tomara que você não entre em problemas” disse e sorriu em despedida “Vê se aparece logo, temos muito o que tocar ainda”
Sorri.
“Você também pode aparecer por lá, eu vou estar te esperando” dei um abraço forte e caloroso nele, e desci as escadas correndo.
Ao chegar na rua tive que me equilibrar e diminuir o ritmo para não escorregar na neve. Dei uma última olhada para o prédio de Carter, e algo na parede me chamou a atenção. O trabalho dos grafiteiros estava pronto, e estava lindo, incrível. Era um desenho de dois grandes olhos bem delineados, com enormes íris azuis extremamente expressivas. De inicio os olhos não tinham um significado especial, mas olhei uma segunda vez e pude entender do que se tratava.
Eram os olhos de Constance.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
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