domingo, 3 de outubro de 2010

Secret Garden | Página 20 | Capítulo 5

Sem dizer nada ele pegou a garrafa de minhas mãos e abriu com um abridor preso as chaves do carro.


“Seja mais suave, Alice. Alguns problemas podem ser resolvidos facilmente”

O que ele queria dizer com isso? Estava tão óbvio que eu tinha problemas? E que eles pareciam ser impossíveis? Que droga, me sentia completamente incerta.

“Vamos logo para o Secret Garden” foi apenas o que disse.



O trajeto até o café foi completamente silencioso, isso por um lado me deixou um pouco perturbada, mas me deu algum tempo para pensar. O triste é que desse tempo em que fiquei pensativa, não consegui concluir nada nem mesmo absorver nada. Bom, pensando bem eu concluí algo: estava confusa. Estava tão confusa que não entendia por que estava confusa.

Comecei a chorar.

Burton olhou para mim sem entender o que estava acontecendo. Provavelmente sem entender o que ele havia feito de errado.

“Ah meu deus” disse limpando meus olhos com as mangas da blusa de Burt.

Ele esboçou algumas palavras com a boca, mas não imitiu nenhum som.

“Me desculpa” disse, as lágrimas não paravam de fluir “Não sei por que eu estou assim”

Ele comprimiu os lábios e ficou pensativo.

“Talvez eu saiba”

“Pode me dizer então?” perguntei tentando sorrir, mas acho que falhei.

“Não” ele sorriu.

“Como ‘não’?” protestei.

“Você irá descobrir algum dia, acredite em mim” ele sorriu parecendo se divertir e com a mesma feição passou o braço sobre meus ombros.

Ficou assim até que o meu choro irritante se calasse. Me senti uma idiota por fazê-lo passar por isso, e mentalmente xinguei aquele choro irracional com todos os palavrões que conhecia.

“Tudo bem, Burt. Estou bem”

“Vamos logo, todos devem estar loucos atrás de nós no Secret Garden”

“Na verdade, eu queria ir para casa”

“Por que não disse antes? Eu te levava em casa”

“Você já me trouxe. Moro logo ali” disse apontando para o pequeno prédio ao lado do café.

Ele olhou interessado.

“É bom saber. Qualquer dia irei te visitar”

Imediatamente me lembrei do pacote de camisinhas.

“Cuidado ein Burton.” disse séria e abri a porta. “Bem, esse passeio foi... divertido apesar do fim que teve. Agradeço pela carona”

“Você sabe que é sempre bem vinda”

Saí do carro fechando a porta atrás de mim.

Na porta do Secret Garden, Carter e Constance conversavam com Margot e um homem baixo, gordinho e com longos cabelos pretos. Ele e Margot estavam de mãos dadas. Nossa, o que eu havia perdido?

Margot tinha quase o mesmo perfil dele, a não ser pelo seu cabelo curto e platinado - chegava a ser branco, mas não por causa de sua idade, e sim por alguma tintura mais ousada - com um grande tufo em cima cheio de cachos. Ela sempre usava um headband diferente a cada dia, a maioria tinha um laço e isso a fazia parecer com uma boneca.

Todos olharam para mim com curiosidade. Torci para que não notassem minha cara deformada pelo choro. E por sorte não notaram, focaram-se novamente na conversa. Apenas Carter olhava sério para mim.

“Alice”

Virei-me em direção ao som. Era Burt correndo em minha direção.

“Esqueceu isso” ele me entregou minha bolsa.

“Nossa, que cabeça a minha!”

“E leve isso” me deu duas garrafas de bebida.

“Obrigada”

Vi a cara que Carter fazia para essa cena e aproveitei para me divertir. Abracei Burton forte, e aproveitei para sentir seu cheiro.

Choque passou levemente pelo rosto de Carter, mas ele logo continuou com um rosto sem expressão.

“Não se preocupe com a questão da blusa, qualquer dia desses você me devolve.”

“Acho que vou acabar a roubando para mim” disse com um tom sarcástico.

Mas não era mentira que eu realmente queria tê-la e poder sentir aquele cheiro de Burton todos os dias.

“Cuidado, sei onde você mora.” ele deu uma risada e piscou. “Qualquer dia a gente se encontra. É só marcar.” Ele olhou para cima parecendo pensativo “Acho que estou livre na semana que vem...”

“Há-há!” balancei a cabeça “Boa noite Burton.”

“Não ganho nem um beijo?” disse ele encenando uma cara de criança pidona.

“Boa noite Burton.” Repeti reprimindo um sorriso e me virei.

Podia sentir o quanto ele se divertia com isso nas minhas costas.

“Feliz Natal!” ele gritou.

Essa definitivamente foi a noite de natal mais estranha que já tive em toda minha vida, e é exatamente por isso que ela será a que nunca sairá de minhas lembranças.

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