“Ocupadíssimos” dei um sorriso enquanto suspirava me lembrando da noite de ontem, caramba... “Então, o que você disse?”
“Não sei quanto a você, mas eu estou morrendo de fome, um risotto italiano cairia muito bem”
Acabei de notar que eu também estava morrendo de fome. Não comi praticamente nada ontem. Estava até um pouco tonta. Acordei assim, mas achei que fosse algo normal depois de... Bem, depois de uma noite como essa.
“Com certeza”
“Quem era no telefone? Você parecia um pouco atordoada” ele persistiu com o assunto, suspirei e comecei a explicar:
“Era minha mãe me contando que minhas aulas particulares começam amanhã” olhei para baixo, minha animação para isso era zero. Voltei meu olhar para Burton.
“Particulares? Por que não entra em uma escola? O ano letivo está mais ou menos pela metade, mas não acho que irão te recusar”
“Porque há uma diferença entre o que ensinam aqui e o que eu estava aprendendo no Brasil. Eu não sei nada muito especifico sobre essa diferença, mas meu pai disse que assim seria melhor. Ele mora aqui faz um bom tempo, ele sabe dessas coisas”
Burt estava pensativo, talvez tentando deduzir e entender as diferenças o sistema educacional brasileiro e o britânico.
“Hmm...” o sorriso crescia “mas assim é até melhor.”
“É bom porque não perco o fio da meada”
Não entendi porque ele sorriu.
“Ah sim, isso também é importante.” Ele riu brevemente divertindo-se consigo mesmo.
“Há algum outro motivo?”
“Sim, claro. Assim você fica bem longe dos colegiais tarados. Já viu aquilo? Meu deus! Parecem animais no cio!”
Comecei a rir, engasgando com as palavras.
“Ah, por favor, Burt! Não tenha ciúmes de colegiais, isso é ridículo”
“Eles podem ser meio animais, meio humanos, mas são espertos e perigosos, ás vezes me impressionam. O jogo de palavras deles pode ser muito bom”
Balancei a cabeça fazendo algum charme.
“Nunca ouviu falar que as garotas preferem caras mais velhos?”
Um dos cantos da boca de Burton se repuxou para cima, uma sobrancelha se arqueou.
“Ótima informação”
Ele se aproximou de mim. Devagar, me deitei na cama, ele se curvou para que seus lábios alcançassem os meus. Subi minha mão que estava pousada sobre a dele até seu braço com um inicio de definição de músculos. Quando, finalmente, seus lábios encontraram os meus, ouvi três pequenas batidas na porta. Suspirei ruidosamente.
“Isso. É. Perseguição.”
Burt encostou sua testa na minha e riu.
“Eu atendo” ele disse enquanto se levantava, beijou minha testa e foi atender à camareira, ou garçom, ou qualquer outra pessoa que havia – extremamente inconvenientemente - nos interrompido.
O homem entrou no quarto empurrando um carrinho brilhante com pratos, flores, talheres e etc... Vestia aquela roupa formal que o fazia parecer um pingüim. Não fez contato visual com ninguém, se quer notou minha presença ali, e ele não parecia muito incomodado com a bagunça do quarto. Essas pessoas que trabalham em locais que envolvem muito contato com humanos devem sofrer algum tipo de lavagem cerebral para agirem com indiferença em qualquer situação e parecerem invisíveis para seus clientes – e os clientes também deveriam ser invisíveis para eles, pelo o que podia notar.
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