sábado, 25 de setembro de 2010

Secret Garden | Página 17 | Capítulo 5

“Peguei aleatoriamente, que bom que acertei.”
“Ual, você pega qualquer coisa e me dá para beber? Deveria começar a ter medo de você?”
“Eu deixo que as pessoas formem por si mesmas uma opinião sobre mim.”
“Claro, claro.”
Andávamos pela rua enquanto bebíamos do líquido desconhecido. Durante todo o trajeto pude sentir os olhos de Burton em mim. Aquilo não me incomodava, mas me sentia constrangida de ser observada dessa forma, e começava a pensar sobre todos os defeitos físicos que possuía.
Bom, se ele olhava era porque gostava do que via, então não havia necessidade de preocupação. Assim espero.
“Gostei do seu sotaque, sabia? É bem diferente.” disse ele me pegando de surpresa.
“Ahm... obrigada...?” ele riu relaxadamente. “O seu também é muito... legal.” Menti.
O sotaque britânico andava me irritando profundamente. Aquela forma estranha de se pronunciar as palavras... Parecia que eles as contemplavam, falavam cada uma demoradamente dando voltas e voltas por ela.
O sotaque americano era melhor, rápido e sem rodeios, e sem duvida era bem mais fácil de ser compreendido. Mas como tive aulas particulares com uma velha chata que doía até os ossos e que achava o sotaque dos ingleses a coisa mais bela que existia, não estava tendo dificuldades para compreender as pessoas por aqui, e isso era ótimo.
A caminhada estava começando a me incomodar. Qual era o sentido daquilo? Ficar andando e andando sem rumo pelas ruas de Londres em plena véspera de natal? É, não era algo com muita lógica.
“Burton, onde exatamente estamos indo?”
“Estamos apenas andando.”
“Tudo bem, mas... sem nenhum objetivo?”
“Quer se sentar?”
“Pode ser. Mas isso não responde a minha pergunta.”
“É claro que responde, agora temos um objetivo: o banco.”
Isso parecia maluquice.
“Vamos para o rio Tamisa,” ele começou a explicar. “lá podemos sentar em um banco e beber em paz. Satisfeita?”
“Sim. Isso parece um objetivo aceitável.”
Não demoramos muito para chegar ao rio, e logo encontramos um banco e nos sentamos.
A avenida não era muito diferente da rua em que estávamos, haviam mais pessoas, mas pereciam ser menos pelo espaço que havia para transitarem. Porém, era bem claro que haviam mais carros, e um congestionamento se formava a um quarteirão de distancia de nós.
E o frio só estava piorando. Torci para que não ficasse insuportável.
“Sobre os objetivos, qual é o seu objetivo na cidade, Alice?”
Meu objetivo na cidade... Essa era uma boa pergunta.
“Não tenho a menor idéia.”
“Viu? Uma caminhada pode sim começar sem um objetivo.” Ele sorriu triunfante.
“Talvez o objetivo seja reconstruir o casamento dos meus pais.”
“Desista.” Ele disse como uma facada. “Não funciona. Digo por experiência própria.”
“Eu tenho fé. Eles pareciam apaixonados.” Algo me veio à cabeça. “Espere um pouco... você comentou o meu sotaque, mas não perguntou sobre a minha origem. E como sabe que eu simplesmente vim para Londres?”
“Margot e eu falamos sobre isso quando ela me ligou para me convidar para a festinha.”

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