Eu estava prestando muita atenção ao que ele dizia, mas não conseguia compreender.
“O que você quer dizer?” perguntei com as sobrancelhas franzidas.
“Eu quero que você entenda o que realmente aconteceu.” Uma de suas mãos se aproximou de mim, mas hesitou e foi para o batente da porta. “Eu não vim antes, pois sabia que tempo seria necessário para você se acalmar.”
Talvez não… uma voz ecoou em minha mente.
“Bom... Carter me ligou na noite em que nós chegamos de viagem, para dizer que eu era um idiota aproveitador.” Arqueei uma sobrancelha. “Sei que soa suspeito, mas é a verdade. Cabe a você escolher se vai acreditar em mim ou não.”
Respirei fundo. Desviei o olhar, mas logo me foquei novamente.
“Como ele ficou sabendo de nós, eu honestamente não sei, mas tenho as minhas hipóteses.” Essa referencia a nós me fez estremecer. “Então ele disse que uma garota como você era esperta demais para se iludir com alguém como eu.” Ele comprimiu os lábios enquanto fazia uma pausa. “Ele disse também que você ainda era apaixonada por ele, e fez o que fez comigo para se esquecer disso.”
Poxa, se isso fosse mesmo verdade – o que eu duvidava -, Carter pensava ter um conhecimento muito grande a respeito de como usar alguém para esquecer-se de outra pessoa. Bom, no meu caso, antes fosse isso, sinceramente.
“Eu disse para ele que nossa relação não havia sido construída com todas essas merdas superficiais e falsas como quaisquer outras que eu havia tido” suas mãos se fecharam em punho, e seu tom de voz aumentava gradativamente. “Eu disse para ele que com você era diferente, e que ele não precisava mais se preocupar com isso, pois eu havia feito você se sentir realmente bem e, que, na realidade, eu fiz sim com que você se esquecesse dele: o cara que te fez chorar. Você se lembra?” ele perguntou, mas não parecia que ele esperava por uma resposta “Mas eu sabia que não era só por isso que você aceitou ficar ao meu lado… Eu simplesmente sabia, e sentia.” Seu tom de voz diminuiu, e ele desviou o olhar. As mãos ainda estavam em fechadas em punho. “Mas ele riu e duvidou. Então eu pensei que uma prova concreta disso fosse necessária, e fiz o que fiz.” Ele se focou no meu olhar novamente. “Critiquei o cara que te fez chorar e fiz o mesmo. Uma atitude imatura e inconseqüente que faz parte das poucas coisas das quais me arrependo amargamente de ter feito.” Sua mão finalmente tocou o meu braço. Senti um choque elétrico percorrer o meu corpo. “Outra coisa da qual me arrependo, é de não ter agido assim que descobri o que você significa para mim.”
Eu me afastei da mão dele. Aquilo parecia perigoso demais.
“Se você não me perdoar, eu irei compreender e arcar com as conseqüências durante toda a minha vida, mas, por favor, Alice. Reflita.”
“Burton” disse lutando contra as lágrimas “Vai se foder.” Tirei um enorme peso das costas dizendo isso.
Ele pareceu surpreso com a minha atitude, mas aceitou.
Eu não conseguia digerir tudo isso. Ainda não fazia sentido para mim. Por que motivo Carter o procuraria? E qual o sentido e a necessidade de Burton ter que provar algo tão inexplicável a ele? Como ele pôde não ter pensado nas conseqüências disso?
“Certo.” Ele balançou a cabeça em aceitação. “Mas eu não vou desistir tão fácil.” Em silêncio, nos encaramos por alguns segundos. “Se cuide.” Disse ele, então se virou e saiu pela porta de entrada do prédio colocando as mãos nos bolsos. Junto com todos os pensamentos embolados, eu me perguntava como ele havia passado por essa porta sem ter tocado o interfone.
Quando a porta principal se fechou, alguém gritou:
“Mamma Mia!” segui o som da voz, e meu olhar mirou um enorme ponto vermelho em cima da escada.
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