sábado, 27 de agosto de 2011

Secret Garden | Página 94 | Capítulo 22
















Acordei com o despertador, me lembrei quem eu era e que eu amava. Pulei da cama em direção ao guarda-roupa, mas aí eu me lembrei também o motivo pelo qual eu estava acordando com um despertador tocando.
“Merda”
Aproveitei que já havia aberto a gaveta de blusas e peguei uma qualquer. Peguei também uma calça e me vesti. Fui para a sala e para minha surpresa o meu pai estava lá.
“Pai?”
“Filha” ele disse e sorriu. Estava de pijama, tomava uma xícara de café enquanto lia a edição de hoje do The Guardian.
Fui até a geladeira e peguei uma jarra de suco, enchi um copo e comecei a bisbilhotar os armários atrás de alguma coisa para comer. Encontrei um bolo.
“Você não tinha que estar trabalhando ou ajudando a mamãe a começar a fazer o mesmo?”
“Não, a sua mãe arrumou um emprego em um salão de beleza. Eu particularmente não achei que foi o melhor emprego que olhamos, mas ela se encantou e acabou aceitando”
“Legal, acho que a gente não vai precisar mais de pagar caro para fazer a unha ou cortar o cabelo.”
Eu sumo por um fim de semana e as questões que estavam pendentes se resolveram. Talvez a minha energia não fosse das melhores.
“É uma vantagem” ele disse sem prestar muita atenção, olhou o relógio de pulso, anunciou que estava atrasado e foi trocar de roupa.
Nem liguei muito; na minha antiga vida, chegar atrasada era quase um ritual diário para mim. Mas então me lembrei de toda aquela coisa de ‘pontualidade britânica’. Meu pai saiu afobado do quarto, e enquanto destrancava a porta de entrada, me falou algumas coisas:
“Seu professor se chama Pablo, ele deve chegar daqui a pouco. Sua mãe comprou um bolo e uns chás, tá em algum lugar aí da cozinha, ela disse para você oferecer para ele. Tenho uma reunião agora, estou indo”
“Tá bom, tchau”
“Tchau” ele falou e saiu. Ainda bem que não percebeu que eu estava comendo o bolo que provavelmente era do Pablo. Terminei a fatia que havia pegado e guardei o resto. Estava começando a imaginar como seriam essas aulas. Quando eu estava na sexta série, tive aulas particulares de matemática, e não era apenas uma hora de aula por dia; em vésperas de provas eu chegava a ficar quatro horas seguidas com a professora fazendo milhares de exercícios. Era horrível. Pensar isso não foi nada animador, já que eu teria muito mais matérias para aprender.
Devem ter contratado um professor muito experiente, pois ele teria de me explicar muitas coisas.
A campainha tocou me pegando de surpresa e dei um salto na cadeira, eu estava realmente imersa em meus pensamentos. Fui correndo abrir a porta, com toda certeza seria Pablo. Não errei na minha previsão.
Ele era meio velho, meio novo, - não dava para saber ao certo – tinha uma expressão rabugenta e um jeito de pessoa inteligente. Suspirei discretamente e dei um sorrisinho enquanto o convidava para entrar. O dia seria longo.


Eram 2h da tarde e eu não agüentava mais fazer exercícios de álgebra. Estava começando a me perguntar se Pablo nunca iria embora, e minha vida se tornaria um redemoinho de números e incógnitas. Estremeci, estalei os dedos e me forcei a concentrar no que estava fazendo. Então, o interfone tocou. Olhei para o teto agradecendo por terem escutado minhas preces.
Fui correndo atender sem me preocupar a pedir autorização para Pablo, mas eu sei que ele tem amor a vida, e não seria louco de não permitir que eu atendesse.
“Alô?”
“Entrega para Srta. Águas Claras” Engraçado, minha mãe não havia me avisado que alguém entregaria algo para ela hoje.
Quando abri a porta principal do prédio eu quase tive um infarto. Um cara segurava um buquê de flores maravilhoso, cheio de cores. Fiquei receosa de pegá-lo, não tinha certeza de que conseguiria levá-lo para dentro sem estragá-lo. Meu pai era romântico, quem diria.
“Alice Águas Claras?” perguntou o homem, então eu quase caí dura de vez.
Encontrei minha voz e falei que era eu mesma.
“Para você” por muito pouco não perguntei se ele tinha certeza disso.
Peguei o buquê – ele mal cabia nos meus braços – agradeci ao homem e entrei. Provavelmente haveria um cartão no meio daquelas flores, era um pouco óbvio que eu sabia quem havia mandado o buquê, mas eu precisava ter certeza. Não tive paciência para esperar entrar em meu apartamento, comecei a procurar pelo cartão no hall do prédio mesmo. Logo o achei bem ao alcance dos olhos. 

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