Eu estava suando, deveria ter perdido alguns quilos só de ficar andando de um lado ao outro. Eu deveria ter pego uma roupa elegante, sim, eu deveria. Peguei minha mala e joguei todo o conteúdo dela em cima da cama. Faltava menos de vinte minutos para as oito e eu ainda estava de toalha. Eu fiquei todo esse tempo apenas pensando comigo mesma na banheira, mas fui obrigada a sair, pois a água ficou gelada e meus dedos parecendo uma ameixa de tão enrugados, e também, eu estava morta de fome. Depois que vim para o quarto comi só um biscoito gigante com fibras que tinha gosto de ração de cachorro.
Analisei tudo o que trouxe e peguei um vestido preto. Eu realmente não sabia o que aquele vestido curto estava fazendo ali, eu nunca sairia nesse frio usando isso. Mas eu só iria até o restaurante do hotel, deveria ser em um lugar fechado.
Coloquei o vestido e me olhei no espelho. Eu estava extremamente sem graça apesar do vestido ser um pouco curto e colado – digo pouco, pois não é nada comparado a alguns outros que já usei na minha vida. Vasculhei mais minhas coisas e encontrei um par de meias finas que terminavam com uma renda na coxa, parecia uma lingerie – e deveria ser mesmo, quando eu gosto de algo eu compro mesmo se não for usar da forma mais apropriada – pelo menos ela me protegeria precariamente do frio. Coloquei a meia, e no final das contas as rendas nem apareceram, ficou parecendo que eu estava usando uma meia calça qualquer.
Coloquei um sapato de salto vinho e passei um batom vermelho nos lábios e, de alguma forma, consegui passar a manteiga de cacau por cima – ela ficou manchada de vermelho, mas eu não dava a mínima. Procurei por uma blusa de frio, mas não encontrei nenhuma que ficasse boa com o visual. Na verdade tinha uma que ficaria um pouco grande, mas ficaria ótima: a jaqueta de couro de Burton.
A vesti e senti seu cheiro junto com uma necessidade enorme de encontrá-lo. Estava me sentindo assim desde o segundo em que pisara nesse quarto sem ele – mesmo depois de todo meu momento de reflexão na banheira, eu ainda precisava dele. Fui para o banheiro e passei lápis e rímel. Aproximei-me do espelho para ver melhor e acabei espirrando, quando abri os olhos vários riscos pretos apareceram em minha pálpebra inferior.
“Merda”
Peguei uma toalha e molhei a ponta dela na água da torneira, em seguida passei nas pálpebras na tentativa de tirar aquilo dali. Depois de algum esforço, consegui.
Joguei a toalha no chão e passei a mão no meu cabelo fazendo-o cair de lado. Eu havia o deixado secar naturalmente, pois não tive tempo para usar o secador – mas obviamente esse não era o motivo principal.
Correndo, peguei minha bolsa-carteira, saí do quarto. Chamei o elevador que por sorte estava no meu andar. Chegando ao lobby ainda tinha um dilema a enfrentar: onde era o restaurante?
Perguntei para o carregador de malas enquanto tomava uma golada de ar. Ele pareceu assustado com a forma que o abordei, então indicou o local me olhando de cima a baixo. Fui correndo até lá, mas na porta do restaurante parei.
“Ok, respire e não pareça afobada”
Esperei até que minha respiração voltasse ao normal e entrei no restaurante procurando por ele.
Olhei por todo o local extremamente elegante fingindo calma – pois por dentro eu sentia meu coração querendo saltar para fora de meu corpo – e quando o encontrei ele já tinha o olhar fixo em mim. Meu coração se acelerou mais ainda e torci para que não tivesse um ataque cardíaco ali.
Andei na direção da mesa em que ele estava sentado e quando já estava bem próxima ele se levantou e puxou a cadeira para que me sentasse. Quando ele queria ser um canalha ele sabia mesmo ser um canalha, e quando queria ser um cavalheiro ele também sabia como fazer isso direito.
Sentei-me com os olhos fixos nele e um sorriso nos lábios.
“Gostei da jaqueta” disse ele enquanto se sentava.
Dei uma risada breve. Eu estava tão constrangida, não sabia direito o que fazer. Ele parecia estar bem à vontade e isso não facilitava as coisas. Caramba Alice, é só o Burton, você nunca se sentiu assim na presença dele. Pelo menos não que você tenha percebido.

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