sábado, 26 de fevereiro de 2011

Secret Garden | Página 59 | Capítulo 12
















Eu ouvi o pior sermão da minha vida ontem à noite. É, a historia sobre mim e David chegou aos ouvidos do meu pai, e um tanto distorcida. Mas não vou culpar as colegas de trabalho dele, eu teria pensado o mesmo se estivesse na perspectiva delas.
Eu tentei explicar para ele a versão verdadeira, mas ele não me deixava falar. Mantive a cabeça fria e esperei ele terminar a enxurrada de xingamentos, depois ele ficou mais calmo e começou a dizer que eu era uma moça de família, não podia ficar fazendo esse tipo de coisa por aí e etc., então, quando ele finalmente se calou eu pude explicar, quando terminei, ele tornou a ficar nervoso, mas bem menos do que de inicio. Ele não estava acreditando em mim, então apelei para a chantagem emocional com a típica frase: ‘Você não acredita na sua própria filha?’ ele ficou sério e começou a pensar. Então disse que não era bem assim, que eu estava em uma idade onde os hormônios estavam a flor da pele, que se eu tivesse algo a contar, eu deveria contar; disse até mesmo: ‘Não vou ficar bravo’, então eu fiquei brava. Falei que eu estava falando a verdade e cabia a ele decidir entre acreditar em mim ou não e me tranquei no quarto.
Eu ainda não o vi, ele saiu cedo e minha mãe foi com ele, mas esperava que ele já acreditasse em mim, não agüentaria mais essas baboseiras sobre hormônios, anticoncepcionais e afins.
Hoje eu iria começar a entregar os panfletos com Carter e estava animada. O trabalho que Margot fizera com as canetinhas falando a respeito do show ficara lindo, e a data escrita ali me deixava animada.
Estava esperando por Carter na porta do café, já havia conversado com Margot e ela disse para irmos para algum local com movimento, ela não havia especificado nenhum.
Vi Carter se aproximando na esquina, sem demora ele já estava ao meu lado. Mostrei para ele a pilha de panfletos que estava carregando. Aquilo não estava leve, eram muitos panfletos.
“Onde vamos entregar?” perguntei.
“Pensei em irmos primeiramente ao tube, que é bem perto daqui e...” ein?
“Tube?” perguntei confusa.
“É como chamamos o metrô por aqui” ah sim, como não pensei nisso? “Lá nós podemos pegar as pessoas da região, e depois, se sobrar alguns panfletos, podemos ir para outro lugar”
“Tudo bem para mim” ele analisou os panfletos na minha mão.
“Me dê isso, eu carrego até lá e quando chegarmos distribuo para nós dois” disse ele gesticulando para a pilha.
“Pode deixar que eu carrego” ele me ignorou e tirou os panfletos da minha mão. Não protestei.
Andamos sem pressa e logo chegamos até o metrô – ou ‘tube’. Descemos as escadas , e por lá o movimento era grande. Carter entregou uma pilha de panfletos para mim, mas a pilha dele estava visivelmente maior do que a minha, mas mesmo assim não era tudo, ele guardou o restante dentro do casaco. Não estava com a pretensão de reclamar por ter uma pilha menor, afinal, ele parecia mais determinado e concentrado do que eu.
Estava esperando por ordens, mas quando olhei, ele já entregava os panfletos, então o imitei.
Eu sorria para as pessoas, algumas devolveram o sorriso, outras me ignoraram por completo. Isso não era justo, eu estava tentando mostrar a elas um dos lugares mais legais de Londres e elas simplesmente se recusavam a aceitar essa oportunidade. Quer saber? Que se dane, são eles quem estão prendendo, não eu.
Umas garotas pegaram o panfleto, o analisaram com atenção e disseram que estariam no show. Pelo sotaque delas pude perceber que eram brasileiras.
Olhei para Carter, o montinho de panfletos dele já estava menor do que o meu, e ele parecia extremamente concentrado no que estava fazendo. Ele não sorria nem nada e já havia me ultrapassado, nossa.
“Você acha que parar de sorrir e de ser gentil vai fazer com que minha pilha acabe mais rápido?” perguntei para ele com uma dúvida sincera.
“Por que está pensando isso?” ele olhou para mim rapidamente sem deixar de entregar os papeis.
“Sei lá, de repente assim eu fique mais concentrada, ficando mais concentrada eu irei produzir mais”
Ele me deu um meio sorriso que me fez ver que talvez eu estivesse sendo extremamente patética.
“Não, não faça isso. Eu estou conquistando as pessoas na sorte, você está conquistando na graça” ele olhou para mim “Não sei se as pessoas para quem eu entreguei os panfletos estarão no café no dia do show, mas com certeza as pessoas para quem você entregou estarão lá” ele piscou.
Era impossível não sorrir. De repente me senti bastante confiante com o meu sorriso bobo.
Não demorou muito e os panfletos de Carter acabaram, eu ainda tinha alguns então terminei de entregá-los. Na movimentação frenética da estação, acabei me distanciando um pouco de Carter sem perceber, então voltei para o lado dele.
“E agora?” perguntei.
“Agora vamos para outro lugar, entregamos metade apenas. Vou comprar as passagens, me espere aqui” ele ia se virando quando eu disse:
“Eu não trouxe dinheiro”
Ele fez uma careta, e, pelo o que pude interpretar, não era de reprovação.
“É só uma viagem de metrô Allie” Allie? “Não saia daqui” ele se virou novamente e foi comprar as passagens.
Allie? Esse era o apelido para Alice aqui? Bem, não é feio, é bem legal na verdade, bem melhor do que meus apelidos em português.
Allie; gostei.

Nenhum comentário:

Postar um comentário